"Junqueira Freire saiu do Liceu Provincial, onde se entregava aos estudos irregulares das primeiras letras, para ingressar na Ordem Beneditina em 1851. Em março do ano seguinte adotou o nome de Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freire. Em 1854 abandonou o hábito e recolheu-se à casa paterna para a elaboração da sua obra. Ele tem manuscritos de : teatro - poesia - prosa."

 

 

Ampliando seus Horizontes Literários

Neste espaço, grandes poetas e escritores do Brasil e do mundo estão e estarão presentes. A amostra será composta de uma poesia ou texto de cada autor somada a uma breve biografia. Espero que apreciem e que conheçam diversos novos autores e trabalhos para compor seu acervo literário pessoal.

Junqueira Freire

Quero dizer que MUITOS que são góticos ou gostam de poesias obscuras, desconhecem este Senhor Junqueira Freire e falam muito de Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos, mas com esta amostra de poetas nobres brasileiros, quero mostrar a todos que muitos outros Senhores, devemos conehcer e seus belos trabalhos.

Creio que os admiradores de Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos, vão adorar este artsita da palavra..

Denise MG

Para começar, vamos nos situar nos Estilos de Época da Literatura entre Portugal e Brasil, no quadro abaixo.

Portugal

Trovadorismo

1189/1198

Humanismo

1418

Classicismo

1527

Barroco

1580

Arcadismo

1756

Romantismo

1825

Realismo

Naturalismo

1865

Simbolismo

1890

Modernismo

1915

Brasil
 

Literatura de Informação

1500

Barroco

1601

Arcadismo

1768

Romantismo

1836

Realismo - Naturalismo - Parnasianismo

1881

Simbolismo

1893

Pré-Modernismo

1902

Modernismo

1922

 

Veja também :

 

Quero destacar aqui, três poesias da "Hora do delírio"

LOUCO
hora do delírio

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele.

Foi uma repulsão de dous contrários:
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe do nó da inteligência:
Quebrou-se o anel dessa prisão da carne
Entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim, - o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Ou sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas,
E zombando o chamais portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

DESEJO
hora do delírio

Se além dos mundos esse inferno existe,
Essa pátria de horrores,
Onde habitam os tétricos tormentos,
As inefáveis dores;

Se ali se sente o que jamais na vida
O desespero inspira:
Se o suplício maior, que a mente finge,
A mente ali respoira;

Se é de compacta, de infinita brasa
O solo que se pisa:
Se é fogo, é fumo e súlfur, e terrores
Tudo que ali se visa;

Se ali se goza um gênero inaudito
De sensações terréveis;
Se ali se encontra esse real de dores
Na vida não possíveis;

Se é verdade esse quadro, imaginam
As seitas dos cristãos;
Se esses demônios, anjos maus, ou fúrias,
Não são uns erros vãos;

Eu - que tenho provado neste mundo
As sensações possíveis;
Que tenho ido da afecção mais terna
As penas mais incríveis;

Eu - que tenho pisado o colo altivo
De vária e muita dor;
Que tenho sempre das batalhas dela
Surgido vencedor;

Eu - que tenho arrostado imensas mortes,
e que pareço eterno;
Eu quero de uma vez morrer p´ra sempre.
Entrar por fim no inferno!

Eu quero ver se encontro ali no abismo
Um tormento invencível:
- Desses que achá-los na existência toda
Jamais será possível!

Eu quero ver se encontro alguns suplícios,
Que o coração me domem;
Quero-lhe ouvir esta palavra incógnita:
- Chora por fim, - que és homem!

Que, de arrostar as dores desta vida,
Quase pareço eterno!
Estou cansado de vencer o mundo,
Quero vencer no inferno!

MORTE
hora do delírio

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dous fantasmas que a existência formam,
- Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das noções da vida.
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

Nunca temi sua destra,
Não sou o vulgo profano:
Nunca pensei que teu braço
Brande um punhal sobrehumano.

Nunca julguei-te em meus sonhos
Um esqueleto mirrado:
Nunca dei-te, p´ra voares,
Terrível ginete alado.

Nunca te dei uma foice
Dura, fina e recurvada;
Nunca chamei-te inimiga,
Ímpia, cruel ou culpada.

Amei-te sempre: - e pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra, - esse elemento
Que não se sente dos vaivéns da sorte.

Para tua hecatombe de um segundo
Não falta alguém? - Preenche-a comigo.
Leva-me à região da paz horrenda.
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Miríades de vermes lá me esperam
Para nascer de meu fermento ainda.
Para nutrir-se de meu suco impuro,
Talvez me espera uma plantinha linda.

Vermes que sobre podridões refervem,
Plantinha que a raiz meus ossos ferra,
Em vós minha alma e sentimento e corpo
Irão em partes agregar-se à terra.

E depois nada mais. Já não há tempo,
Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada, - esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

Facho que a morte ao lumiar apaga,
Foi essa alma fatal que nos aterra.
Consciência, razão, que nos afligem,
Deram em nada ao banquear em terra.

Única idéia mais real dos homens,
Morte feliz, - eu quero-te comigo.
Leva-me à região de paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Também desta vida à campa
Não transporto uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.

E como autômato infante
Que inda não sabe sentir,
Ao pé da morte querida
Hei de insensato sorrir.

Por minha face sinistra
Meu pranto não correrá.
Em meus olhos moribundos
Temores ninguém lerá.

Não achei na terra amores
Que merecessem os meus.
Não tenho um ente no mundo
A quem diga o meu - adeus.

Não posso da vida à campa
Transportar uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.

Por isso, ó morte, eu amo-te, e não temo:
Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região de paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Muito interessante, não acha?

 

Biografia do Autor

Junqueira Freire

Nascimento: 31 de dezembro de 1832 - Salvador - BA - Brasil
Morte: 24 de junho de 1855 (não consta o local, mas diz que em 1854 ele voltou à casa paterna.

Saiu do Liceu Provincial, onde se entregava aos estudos irregulares das primeiras letras, para ingressar na Ordem Beneditina em 1851. Em março do ano seguinte adotou o nome de Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freire. Em 1854 abandonou o hábito e recolheu-se à casa paterna para a elaboração de sua obra.

Ele tem manuscritos de : teatro - poesia - prosa.

Livros:

Inspirações do Claustro - 1855

Elementos da Retórica Nacional - 1869

Contradições Poéticas, que integrou o segundo volume das "Obras Poéticas", publicadas em data incerta, no Rio de Janeiro, pela Garnier.

Pesquisa e apresentação de DeniseMG

DeniseMG

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