" HOJE ACORDAMOS EM SÍTIOS DIFERENTES ... Eu, no meio das ruínas que se movem, das sombras que sopram, das almas em fuga para dentro da vida. Tu, no meio das ruínas paradas, das sombras que já não respiram, das almas em fuga para longe da vida. Amanhã, sempre amanhã, tentaremos acordar no mesmo sítio de sempre e o abismo do medo e da dor irá rir-se de nós enquanto nos engole ou deixa passar." - poema da capa do livro "Feridas Essenciais" por Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell - Portugal

 

 


Muitos fans dos Moonspell pelo mundo, conhecem bem o artista Fernando Ribeiro, vocalista e letrista desta banda de metal português e agora poderão descobrir também o poeta em palavras que doem uma beleza obscura, palavras que calam um grito perdido no abismo de sonhos impuros... De morte e vida.

Em 2001, fomos contemplados com o lançamento de seu primeiro livro de poesias "Como escavar um abismo" e tenho a honra de exibir aqui no Vampirus Brasil, algumas de suas poesias e são elas :

- Horroris Causa
- Cinderela em Negativo
- Poema D´Amoniaco
- O ruído do sangue

Em 2004, aconteceu o lançamento de seu segundo livro de poesias, chamado "Feridas Essenciais", do qual também falaremos nesta entrevista, assim como dos atuais passos dos Moonspell, banda muito conhecida em terras brasileiras.

ENTREVISTA COM FERNANDO RIBEIRO

1. Fernando, quando aconteceu o início de tua veia poética, o compositor,
o letrista dos Moonspell? Tu sentiste muito bem este grito ou fora algo
paulatino, suave? E com o passar dos anos, foi te envolvendo mais?


Nada de muito místico ou com qualquer contorno de chamamento. Sempre fui muito ligado e influenciado pela palavra e encetei um contacto mais profundo com ela à medida que fui lendo e descobrindo mais autores e composições. Depois arrisquei na composição própria e escrever tornou-se uma parte de mim, cada vez mais importante e necessária. Em Moonspell, melhor, Morbid God vivia-se a altura de todas as ingenuidades e as minhas letras, mesmo dentro desse contexto, destacavam-se por ser um pouco mais conseguidas, mais cuidadas até. Então foi escolhido, não pela voz mas mais pela palavra, como interprete das mesmas e assim me tornei vocalista. Hoje em dia e apesar de não querer de modo algum cultivar o charme/imagem de escritor que não pensa em mais nada, ser-me-ia muito complicado perspectivar a minha vida sem a escrita ou a leitura.

2. O que te levou a escolher a Faculdade de Filosofia, cursada em Lisboa,
Portugal?

Estava indeciso entre História e Filosofia antes de ingressar na Faculdade. Mas no ano anterior a esse ingresso afastei-me da História cuja matéria incidia mais no método historiográfico e pouco no facto e conjuntura histórica e comecei a conhecer Kant, Hegel, Kirkegaard, Nietzsche, Feuerbach, entre outros pensadores que me fascinaram e me levaram a tomar esta decisão. A minha média permitia-me escolher a Faculdade que queria e apesar de algumas hesitações fiquei por Lisboa, por causa da proximidade, da tradição, de alguns professores.

3. Pode-se dizer que teus dois livros de poesias são espelhos de uma mesma
alma, ou não?

Espero que sim. Já há muito que deixei esse exercício psicanalítico e obsoleto de dividir entre as almas, entre as personas. Deu-me muito trabalho a unificação de todas elas e tudo o que faço tem um tema e uma cor comum, seja letras em Moonspell, ou poemas em livros.

4. Há poetas que se inspiram na dor, outros no amor, outros na morte...
E tu? Tua inspiração vem de onde?

Da vida enquanto unidade da vigília e do sonho permitido do amor, da morte, da dor. Todos estes sentimentos e conceitos são matéria, causa e consequência nas minhas palavras, embora nem sempre esteja claro o que pertence a cada um, ou onde se inscreve cada um. Isso é o que tento descobrir e também ocultar enquanto escrevo. De vez em quando tenta dizer-se dor e sai amor, por outras vezes diz-se coração mas percebe-se entranha. A minha inspiração vem muito mais do que não controlo.

5. Os nomes de teus livros : "Como escavar um abismo" e "Feridas Essenciais",
trazem de teu interior, quais mensagens aos teus leitores?

São simples metáforas, uma para viver na sobrevivência que é a vida, outra para definir os temas essenciais da mesma. Tudo sem imposições de gosto, tendência ou comportamento, apenas perspectivas bem pessoais que se transformam à luz da sua comunicação ao outro e, esperemos, na continuidade deste diálogo.

6. Tu também te dedicas a escrever a coluna "The Eternal Spectator". Fale-nos
um pouco deste trabalho.

Já o faço há alguns anos na Loud!, a revista de Metal em Portugal. São visões diversas, observações (daí o nome da coluna) que transcrevo, ao meu estilo, e que podem variar do mais puro e inútil filosofar até ao avaliar de impressões, discos, livros, situações, etc. que tento sempre contextualizar no Metal e na sua cultura. Por vezes é complicado escrever esta coluna porque nem sempre entro em contacto com quem a lê, mas não deixa de ser algo que tem sempre de ser tomado em conta quando se tem uma coluna de opinião. Tento é sempre não moralizar ou impingir e nunca deixei de abordar um assunto por achar que ninguém o iria perceber. Não é do meu feitio sentir-me superior ao leitor e nem ousaria rebaixá-lo pela omissão de algo. O artigo que mais gostei de escrever e de ler depois foi sobre a morte de Quorthon dos Bathory, minha máxima referência musical. Chamava-se The twilight of a God e narrava o dia que passei com ele em Portugal em 1989, bem como tudo o que senti antes e depois.

7. Quais teus poetas ou escritores favoritos?

É complicado dizer com exactidão mas na poesia tenho quase a certeza que o meu autor de eleição é um poeta espanhol chamado Justo Jorge Pádron. Apesar de também gostar muito de Baudelaire, Pessoa, Miguel Torga, Paul Éluard, entre muitos outros. Quanto a escritores no sentido mais lato o meu preferido é o grego Nikos Kazantsakis se bem que Eça de Queirós, H.P.Lovecraft, Patrick Suskind, Somerset Maugham, José Luís Peixoto, Hermann Hesse, António Lobo Antunes, entre muitíssimos outros estejam entre os meus eleitos também.


8. Nietzche já disse uma vez : "Deus deveria dar asas a quem ama o abismo".
Quero perguntar-te : O que é o abismo? O medo pode ser o antídoto do medo?

O abismo é o intervalo na vida. Nas emoções, um vazio que nunca chega a estar vazio, algo que preenche o espaço do vazio, tanto pode ser queda como ascensão, curiosidade ou simples ponto de passagem. Um medo pode substituir outro mas muito mais que isso o medo é um alerta, o sangue que bomba mais rápido e nos desperta, o momento da decisão, o viver todos os dias com o objectivo de algum dia de o vencer ou pelo menos de o amordaçar na nossa respiração mais leve.


9. As criaturas da noite o atraem? Já viveste fatos, situações sobrenaturais
ou bizarras, que possa nos contar?

Sim, ao fim e ao cabo estou numa banda :). Não me considero um místico, acho que a mística é moda, importação de algo para o qual o nosso corpo e espírito ocidental não irá estar nunca preparado para receber. Nós somos terra, da suja. Mas acredito no espírito, naquilo que reside dentro do nosso desconhecimento de nós mesmos, acredito que possamos espreitar para lá, eu já o fiz por muitas vezes e tenho as minha letras e poemas como documentos desse olhar. A minha avó visitou-me no ar à minha volta na noite em que partiu e há muitos anos vi um livro que ardia sem razão aparente numa rua suja do meu bairro, nos subúrbios de Lisboa.

10. Agora falemos dos Moonspell... Qual o line-up da banda hoje?

Fernando Ribeiro voz, Mike Gaspar bateria, Pedro Paixão teclados e guitarra, Ricardo Amorim guitarras e Aires Pereira, músico convidado no baixo.

11. Quais são os passos dos Moonspell para 2005? Podemos esperar por shows
no Brasil?

Para já uma tour Europeia com Cradle of Filth e The Haunted, bem como alguns shows headline na Croácia, Roménia, República Checa, Portugal e Grécia. Depois festivais de Verão em Espanha, Portugal e Finlândia para já. Depois queremos editar o nosso primeiro DVD ao vivo logo a seguir ao Verão. Contamos também gravar o novo disco e editar antes do fim do ano. Já temos mais de oito temas novos que nos deixam muito orgulhosos do seu resultado. Não há planos para voltar ao Brasil este ano.

12. Os Moonspell já foram premiados como a melhor banda nacional em terras
portuguesas e são certamente, reconhecidos pelo mundo afora em grande sucesso.
Voltemos um pouco no tempo... Como tudo começou? Onde? O início do grupo
fora muito difícil? Já encontraram barreiras religiosas?
No Brasil, os grupos que começam a carreira, são muitas vezes chamados de
"bandas de garagem", pois ensaiam nas garagens de suas casas. Isso também
acontece em Portugal?

Sim. Mas nós não tínhamos casas com garagem, ainda não temos. Moonspell vêm de "baixo", sem apoio, miúdos de subúrbio com uma alma e uma fome de mundo, de música, de palavra. Depois fomos crescendo sem perder esta fome. Nunca contamos onde chegamos, vemos sempre onde podemos chegar, somos muito pouco Portugueses nesse aspecto, nãos somos ostensivos, somos realistas. Acreditamos na nossa música, sabemos que ela é, para nós e muitos, especial, diferente e isso aplaca a nossa fome. Começámos nos nossos quartos, nas nossas salas de aulas, nas nossas conversas à porta dos correios, adolescentes com cerveja e livros nas mãos. No bairro mais clandestino da Europa então: a Brandoa. Depois saímos para o mundo e demos a conhecer a nossa fome a iguais. E permanecemos juntos até hoje. Foi muito complicado o nosso inicio, tudo estava contra nós, os nossos pais, os nossos amigos achavam-nos patéticos, a junta de freguesia despejava-nos do nosso local de ensaio, resistimos e hoje somos a maior banda de Metal em toda a história do nosso país. Mas isso a mim não me diz quase nada, o que gosto mesmo é de chegar ao fim de uma letra e cantá-la. Barreiras religiosas? Os cristãos em Portugal estão muito ocupados com o seu carro e esposa em Portugal para repararem em nós, ainda bem pois detesto polémica e confusão, afasta as pessoas do valor da nossa música e palavra.

13. Gostas de grupos de rock brasileiros? Quais?

Muitos. De Metal em especial: Sepultura, Genocídio, The Mist (alguém que me arranje esse CD!!! :), Sarcófago, Dorsal, Aamonhammer, bem podia estar aqui toda a noite, a cena Brasileira era umas das minhas paixões nos tempos do Undergorund...Lamentation, Vulcano...

14. Qual o setlist da tour atual dos Moonspell? Relembra albuns anteriores?

Basicamente estamos a tocar temas do Antidote em conjunto com "clásssicos" do Wolfheart e Irreligious. Também Darkness and Hope. Deixámos um pouco o Butterfly e Sin nesta tour pois são músicas mais peculiares e este setlist é mais incisivo, mais poderoso, mais pagão e directo e estes discos têm outras nuances. Temos um setlist que tem dado muito resultado, por vezes incluímos Death Metal improvisado, Under the Moonspell, tudo pode acontecer num certo momento...

15. Já aconteceu algum imprevisto nos palcos de Festivais ou concertos solos
dos Moonspell e tiveste que improvisar ou cantar como um "acústico"?

O nosso principal imprevisto são falhas de energia, especialmente em Portugal, não sei porquê....Mas desse género nunca aconteceu nada, uma vez perdi-me nos Senhores da Guerra no festival do Ermal perante 8000 pessoas e resolvi tocar tudo de novo e assumir o erro, porque não? Errar é humano e eu sou muito humano.

16. Uma frase bastante usada no Brasil diz: "Sexo, drogas e rock n? roll"
! O que tu dirias à respeito?

Em todo o mundo! Não sei, já estive em todos os infernos e não me senti bem lá, vale mais a pena o amor verdadeiro, a luta pela sobrevivência, a dor. Essa trilogia para mim é amarga, faz-me igual a qualquer um.

17. Esta frase é tua : "Eu sou como o homem que fechou todas as portas dentro
de si e ficou de fora."
E te pergunto: Quem é Fernando Ribeiro, por ele mesmo?

O homem à procura das chaves.

18. E para fecharmos esta bela entrevista, convido-te a deixar uma mensagem
aos teus fans e a todos os amantes dos mistérios e das noites e suas criaturas
eternas que aqui se deliciam nos prazeres, sedução, vida e morte, no Vampirus
Brasil.

Obrigado Denise pela entrevista. Obrigado a todos quanto seguem o feitiço, esperamos voltar ao Brasil e mostrar ainda mais! Um grande abraço lunar a todos aqui de Portugal!

Entrevista feita por DENISE MG - fevereiro 2005

 

Discografia dos Moonspell

Under the Moonspell (MCD) - 1994
Wolfheart - 1995
Irreligious - 1996
Second Skin (2x MCD) - 1997
Sin / Pecado - 1998
The Butterfly Effect - 1999
Darkness and Hope - 2001
Everything Invaded (single) - 2003
The Antidote - 2003
 
Algumas poesias de FERNANDO RIBEIRO, copiadas do livro "COMO ESCAVAR UM ABISMO" estão disponíveis agora para você em POESIAS

 

Leia abaixo 2 poesias de seu novo livro "FERIDAS ESSENCIAIS"

Pessoa versus Crowley

Pessoa e Crowley encontraram-se num canto enrodilhado, qualquer,
da besta incivilização Lisboeta em plena Era Vulgar.

Para uma partida instantânea de Xadrez,
para um copo rapidamente letal de Perdição,
verde, oculto, irrigado correspondente d´absinto e de luto.

Para uma sessão esclavagista de sexo a três:
A mulher Escarlate, O Prata Astral, O Abstinente Autista
degolado Precursor Português.
A sua música e dolorosa Primeira Vez.
À força triste de cabalístico número eterno,
redondo de retorno inversor, invasor cadavérico, cerebral ciumenta aridez.


Duelo

Àquele que me mostrar alguém
Com mais momentos de engano
Darei a recompensa devida,
Dizendo-lhe em cada dia que se levanta,
E que pensa bonita a vida,
E que quer bonita a vida,
Tudo dependerá, fatalmente, de onde se vê a vida,
De onde se pensa a desdita,
Pois que o desejo é tudo o que se quer e o que nunca se pode.

Sós e confusos num beijo sufocado,
Ritual profano,
Volta a língua à boca proibida que deixou escapar o sopro
e me tentou mostrar alguém com mais momentos de engano.
Quem em cada dia que se levanta
E que pensa bonita a vida,
Com que lhe fiz pagar, mplacável,
O engano da vida.

 

Mande um e-mail para mim, dizendo se gostou desta entrevista:

denisevampirusbrasil@globo.com

DeniseMG

Vampirus Brasil | São Paulo, Brasil © 2001/2005 todos os direitos reservados |